Livros didáticos como dispositivos de biopoder: produção de feminilidades normativas no PNLD

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18671626

Palavras-chave:

livro didático, gênero, biopoder

Resumo

Os livros didáticos constituem dispositivos pedagógicos que operam para além da transmissão de conteúdos, participando ativamente da produção e legitimação de regimes de verdade sobre as identidades de gênero. Embora estudos recentes identifiquem a persistência de estereótipos de gênero em materiais didáticos distribuídos pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), permanecem pouco explorados os mecanismos discursivos específicos através dos quais tais representações naturalizam desigualdades e produzem subjetividades generificadas. Este artigo analisa como livros didáticos aprovados pelo PNLD (2017-2019) funcionam como tecnologias de biopoder na produção de feminilidades normativas. Mediante Análise do Discurso foucaultiana, examinam-se 18 sequências discursivas, verbais e imagéticas, extraídas de quatro livros do Ensino Fundamental: Português Linguagens, Vontade de Saber Geografia, Companhia das Ciências e Vontade de Saber História. A análise demonstra que três mecanismos discursivos operam de forma sistemática: a universalização, que apresenta arranjos sociais contingentes como evidências trans-históricas da “natureza feminina”; a biologização, que reduz identidades de gênero a determinações anatômicas, ocultando processos históricos e políticos; e a fragmentação, que multiplica representações femininas em papéis limitados (maternidade, domesticidade, cuidado), impedindo a constituição de mulheres como sujeitos políticos integrais. Argumenta-se que esses mecanismos não constituem meros preconceitos, mas operam como tecnologias de governamentalidade que regulam as possibilidades de existência das estudantes, produzindo efeitos particularmente excludentes para mulheres negras, LGBTQIA+, gordas e idosas. O estudo evidencia que políticas de material didático necessitam superar a mera identificação de estereótipos, problematizando os regimes de verdade que naturalizam a diferença sexual como fundamento biológico das desigualdades de gênero.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Vania Gomes Cardoso, Centro Universitário de Iporá - UNIPORÁ

Graduada em Licenciatura plena em Letras (2013), pela Universidade Estadual de Goiás (UEG UNIPORÁ) , Licenciada em Pedagogia (2016) pela Universidade de Santo Amaro (FASAMAR), Especialista em Alfabetização e Letramento (2016), pela Universidade Estadual de Goiás (UEG UNIPORÁ), Mestra em Educação (2019), pela Universidade Federal de Goiás (UFG- Campus Jataí), Especialista em Docência no Ensino Superior On-line (2021), pela Uniaraguaia, Especialista em Ensino Híbrido para uma Educação Inovadora (2022), pela Uniaraguaia, Especialista em Psicopedagogia Institucional (2024), pela Uniaraguaia, doutoranda em educação pela UFJ (Universidade Federal de jataí). Atua na área de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Língua Espanhola. É também, pesquisadora na área sobre os discursos das mulheres, presentes em livros didáticos do ensino fundamental, partindo das materialidades linguístico-imagéticas observadas em obras de Língua Portuguesa. Atualmente, é Docente da Secretaria Municipal de Educação de Iporá, atua com o ensino infantil nas series iniciais. É Docente no curso Superior de Licenciatura em Pedagogia no Centro Universitário de Iporá - UNIPORÁ,atuando nas áreas de: Formação de Professor, Estágio Supervisionado, Docência, Metodologia Cientifica É membra colaboradora do Grupo de Estudos Núcleo de Estudos, Pesquisa e Formação em Educação Sexual (NuEPFES) da UFJ desde 2020, desenvolvendo conferências, produzindo textos para publicações em revistas e congressos.

Vivianne Oliveira Gomes, Universidade Federal de Jataí

Licenciada em Educação Física pela Universidade Federal de Goiás (1998), Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (2002), Doutora em Ciências da Atividade Física e do Esporte (2012) pela Universidad de Castilla La Mancha (UCLM-Espanha) e Pós-Doutora em Psicologia na Universidade da Beira Interior (UBI - Portugal). Docente Associada dos cursos de Educação Física da Universidade Federal de Jataí (UFJ), do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE-UFJ) e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP/UFJ). É líder do Grupo de Pesquisa GESEFE - Gênero, Sexualidades, Educação e Educação Física (CNPq/IFES) e vice-líder do Grupo de Pesquisa NuEPFEs - Núcleo de Estudos, Pesquisas e Formação em Educação Sexual (CNPq/IFES), ambos registrados no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, desenvolvendo investigações interdisciplinares sobre corpo, gênero, sexualidades, educação sexual e formação docente.Temas de pesquisa: Imagem Corporal, Formação Humana na perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica; Relações de Gênero; Corpo, Sexualidades e Educação; Produção de Subjetividades, Gênero e Espaços Educativos (pedagogia escolar e pedagogia cultural); Políticas Sociais, Educação e Gênero.

Referências

BASTOS, F. Relações sociais de gênero e divisão sexual do trabalho: como essas instâncias se revelam nos livros didáticos de ciências do ensino fundamental. Revista Tempos e Espaços em Educação, São Cristóvão, v. 8, n. 16, p. 11-24, 2015.

BAUMAN, Z. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

BRITO, R. S.; DALLABONA, C. A. O livro didático e seus estereótipos de gênero. Perspectiva, Florianópolis, v. 32, n. 3, p. 769-795, 2014.

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Português linguagens: 8º ano. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2015.

CHOPPIN, A. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 3, p. 549-566, 2004.

COSTA, T. et al. Naturalização e medicalização do corpo feminino: o controle social por meio da reprodução. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 10, n. 20, p. 363-380, 2006.

DEL PRIORE, M. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta, 2011.

EMÍDIO, T. S.; HASHIMOTO, F. Entre filhos, irmãs e maridos: a identidade feminina por meio do outro. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 9, n. 2, p. 35-54, 2008.

ENGEL, M. Psiquiatria e feminilidade. In: DEL PRIORE, M. (org.). História das mulheres no Brasil. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2008. p. 322-361.

FISCHER, R. M. B. Adolescência em discurso: mídia e produção de subjetividade. 1996. 297 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1996.

FONTINELE, T. P.; COSTA, M. J. A. A normatização do corpo feminino e os modos de subjetivação na contemporaneidade. Revista Subjetividades, Fortaleza, v. 20, n. 1, p. 1-11, 2020.

FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida

Sampaio. 16. ed. São Paulo: Loyola, 2008.

FURTADO, R. N.; CAMILO, J. A. O. O conceito de biopoder no pensamento de Michel Foucault. Revista Subjetividades, Fortaleza, v. 16, n. 3, p. 34-44, 2017.

GONÇALVES, V. O. et al. A invisibilidade das mulheres na história da ciência: estudo de caso dos livros didáticos do sexto ao nono ano. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 5, n. 9, p. 15463-15485, 2019.

GRINBERG, K.; DIAS, A. M.; PELLEGRINI, M. Vontade de saber história: 9º ano. 3. ed. São Paulo: FTD, 2015.

GRISCI, C. L. I. Mulher – mãe. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.

LACERDA, R. C.; ROCHA, L. F. Fazer viver e deixar morrer: os mecanismos de controle do biopoder segundo Michel Foucault. Kínesis, Marília, v. 22, p. 148-163, 2018.

LE GOFF, J. História e memória. 4. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1997.

LOURO, G. L. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, G. L. (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 7-34.

LOURO, G. L. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, M. (org.). História das mulheres no Brasil. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 443-481.

MARIANO, A. S.; FERREIRA, L. B. Relações de gênero e sexualidade em livros didáticos dos anos finais do ensino fundamental: um estudo de caso em uma escola de Ilicínea-MG. Olhar de Professor, Ponta Grossa, v. 26, p. 1-21, 2023.

NICARETA, S. E. Percorrendo alguns dos circuitos do livro escolar no Brasil: elucidando aspectos da mulher na Primeira República à Era Vargas. Cadernos de InterPesquisas, Curitiba, v. 1, p. 30-49, 2023.

NIELSSON, J. G. Planejamento familiar e esterilização de mulheres no Brasil: a ambivalência entre a retórica dos direitos humanos e a prática do controle reprodutivo sobre o corpo das mulheres. Revista da Faculdade Mineira de Direito, Belo Horizonte, v. 23, n. 45, p. 318-345, 2020.

OLIVEIRA, M. S.; COSTA, A. L. Livro didático no Brasil: um panorama do Programa Nacional do Livro e Material Didático. Communitas, Rio Branco, v. 5, n. 9, p. 393-401, 2021.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 8. ed. Campinas: Pontes, 2009.

ORNAT, M. J. Território da prostituição e instituição do ser travesti em Ponta Grossa – PR. 2008. 160 f. Dissertação (Mestrado em Gestão do Território) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2008.

RICCIOPPO, A. C.; GATTI, G. C. V. Civismo e patriotismo na escolarização feminina no Brasil: a escola de economia doméstica de Uberaba (Minas Gerais, 1953-1963). Cadernos de História da Educação, Uberlândia, v. 19, n. 3, p. 1146-1169, 2020.

RODRIGUES, A. M. P.; ZOBOLI, F. A categoria “Mulher” como dispositivo biopolítico de educação do corpo. Revista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. esp. 4, p. 1-18, 2022.

ROSEMBERG, F. A educação da mulher no Brasil. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 3, n. 1-2, p. 18-21, 1975.

ROSSINI, R. E. Geografia e gênero: a mulher como força de trabalho no campo. Informações Econômicas, São Paulo, v. 34, n. 1, p. 41-52, 2014.

SANTOS, N. R. O. Reflexões sobre o corpo feminino a partir da concepção foucaultiana. Perspectivas em Diálogo, Naviraí, v. 9, n. 21, p. 295-309, 2022.

SCOTT, J. História das mulheres. In: BURKE, P. (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992. p. 63-95.

SILVA, C. R. Representações do masculino e do feminino nos livros didáticos de biologia. Ensino em Re-Vista, Uberlândia, v. 23, n. 1, p. 224-248, 2016.

TEDESCHI, L. A. As mulheres e a história: uma introdução teórico-metodológica. Dourados: Editora UFGD, 2012.

TORREZANI, N. C. Vontade de saber geografia: 8º ano. 3. ed. São Paulo: FTD, 2015.

USBERCO, J. et al. Companhia das ciências: 8º ano. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2015.

VIANNA, C.; UNBEHAUM, S. O gênero nas políticas públicas de educação no Brasil: 1988-2002. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 34, n. 121, p. 77-104, 2004.

WOLF, N. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

Downloads

Publicado

2026

Como Citar

CARDOSO, V. G.; GOMES, V. O. Livros didáticos como dispositivos de biopoder: produção de feminilidades normativas no PNLD. Cadernos de InterPesquisas, [S. l.], v. 4, p. 024–054, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.18671626. Disponível em: https://esabere.com/index.php/cadips/article/view/196. Acesso em: 7 mar. 2026.

Edição

Seção

Artigos de Fluxo Contínuo