A educação sensível: afeto e sentimentalismo nos livros escolares brasileiros (1889-1945)
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.18107337Palavras-chave:
Livro Didático, História das Sensibilidades, Relações de GêneroResumo
Este artigo analisa a construção da "educação sensível" em livros didáticos de autoria feminina publicados no Brasil entre 1889 e 1945. Investigando obras de autoras como Julia Lopes de Almeida e Maria Guilhermina Loureiro de Andrade, o estudo demonstra como o afeto e o sentimentalismo foram utilizados como dispositivos de normalização de gênero e de docilização das almas infantis. A fundamentação teórica ancora-se nos conceitos de Imaginário Social e Representações para compreender o livro didático como um objeto que prescrevia destinos emocionais específicos, especialmente para as meninas. A metodologia qualitativa identifica eixos temáticos como a "maternidade espiritual", o uso de diminutivos e a exaltação do sacrifício como virtudes femininas fundamentais. Os resultados revelam que o sentimentalismo didático não era apenas um estilo, mas uma ferramenta política para converter a norma estatal em sentimento privado, garantindo a obediência à ordem republicana através do calor doméstico. Conclui-se que essa pedagogia "fabricou" a domesticidade como destino natural da mulher, utilizando uma pedagogia da culpa e uma estética da ternura para internalizar a vigilância e manter estruturas patriarcais e higienistas sob um verniz de doçura.
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